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Zoologia em tempo de mudanças: sobrevivendo à tempestade perfeita

 

Durante os últimos 10.000 anos o nosso planeta passou por um período de relativa estabilidade climática e geológica. Por volta de 7.500 anos surgem as primeiras cidades, as quais refletiram nossos avanços tecnológicos e sociais. Desde então o Homo sapiens se desenvolveu de forma exponencial e a sociedade, educação, cultura e tecnologia se tornaram cada vez mais complexas e interligadas. A população humana vem crescendo vertiginosamente graças a esses avanços, tornando o inesperado, possível – o planeta hoje alberga cerca de 8 bilhões de pessoas vivendo em condições profundamente diferentes. A pressão e as ações da população humana geraram mudanças e cenários ambientais globais que não refletem aqueles observados nos últimos 10.000 anos.

Ciência e tecnologia nos trouxeram até esse momento, numa corrida vertiginosa que produziu esse mundo no qual vivemos e que, graças às nossas ações, encontra-se em risco. Paradoxalmente, o que nos permitiu chegar aqui é também responsável por mudanças no Planeta que colocam em risco exatamente o que somos: uma humanidade tecnológica.

Esse é o momento de confrontarmos racionalmente o futuro e de planejar como vamos lidar com essas mudanças. As alterações climáticas, as mudanças da distribuição das espécies e das comunidades locais, a emergência de novas enfermidades em espécies silvestres e cultivadas, as enfermidades infecciosas emergentes em humanos, a destruição da hábitats, as extinções crescentes de espécies, a sobre-exploração de recursos naturais (ex. pesca, recursos minerais), o aumento na frequência de acidentes ambientais, a pressão agrícola, a poluição, espécies invasoras, dentre tantos outros, mudaram e continuarão a mudar o mundo e terão profundos impactos na nossa qualidade de vida e sobrevivência. Somado a isso, quando é tão necessária, a ciência vem sendo difamada e questionada por governantes e por uma parte da sociedade– teorias absurdas e pseudocientíficas são propostas para substituir o conhecimento testado e estabelecido ao longo de séculos de desenvolvimento científico e tecnológico. Os investimentos em pesquisa científica vêm sendo sistematicamente limitados, em especial em nosso país. Os argumentos utilizados são, normalmente, associados com a impossibilidade do gasto com a área, o que revela uma percepção completamente errônea do papel das ciências nas políticas públicas. Além de, certamente, demonstrar interesses políticos, modismos e achismos do momento.

Observa-se uma enorme pressão em direcionar a pesquisa e o ensino para áreas aplicadas e/ou consideradas como mais populares. Mas ciência não se faz apenas assim e a história sobre nosso desenvolvimento científico e tecnológico deixa isso bem claro.

As diferenças sociais entre os povos desse planeta se acentuam, e a falta de recursos naturais para prover a sobrevivência de populações em diversas partes do mundo leva às migrações em busca de condições melhores de vida. Guerras, preconceito, pobreza, fome e sede são algumas das consequências de nossos próprios atos sobre a natureza desse planeta.

A pesquisa em Zoologia no Brasil é uma das mais vibrantes e respeitadas em todo o mundo, consequência da dedicação e da capacidade de nossos pesquisadores e da nossa megabiodiversidade. Nesses tempos de mudanças precisamos discutir e planejar nossas pesquisas e ações de maneira a nos permitir enfrentar a tempestade perfeita que se forma no horizonte, resultante das consequências sinergéticas de todas as pressões que impusemos no Planeta.

Nesse cenário, em 2022, em Curitiba, durante o XXXIV Congresso Brasileiro de Zoologia, vamos analisar, interpretar e planejar o enfrentamento desses problemas no nosso futuro imediato e futuro. Não é o momento de negar, ignorar os problemas. Soluções baseadas na ciência tornam-se fundamentais, mas, paradoxalmente, ela vem sendo menos valorizada pelos governantes mundiais e mesmo por parte da população. Entender a origem dos problemas e racionalmente propor soluções é algo que só será possível quando enfrentarmos de forma frontal e objetiva os problemas que nós mesmos criamos, como sociedade. Antigamente pensávamos em deixar um mundo melhor para as próximas gerações. Agora sabemos que é momento de pensarmos as soluções que vão garantir que efetivamente deixaremos um mundo minimamente habitável, idealmente melhor do que o atual, para a nossa geração.

Se você é como nós e considera a ciência fundamental para a busca de soluções para o Planeta e para a nossa sociedade, planejem nos encontrar em Curitiba, entre 7 e 10 de março de 2022. O XXXIV Congresso Brasileiro de Zoologia irá promover uma imersão na Zoologia nacional, além de discutir e planejar o nosso futuro, contribuindo para a proposta de soluções e definição dos caminhos para seguirmos na travessia dos tempos que se apresentam.

 

Comissão Organizadora XXXIV CBZOO

*A utilização da foto da gralha azul na logomarca do congresso foi autorizada pelo autor. Créditos: Roland Kratzer